sábado, 6 de dezembro de 2008

Jardim


Trago no sangue o mistério

Daquele resto de estrada

Que não andei...


E era talvez ali

Que eu ia ser feliz...

Ali

Que viriam as Fadas p’ra contar-me

Os contos lindos de Princesas

E de Palácios

E de Florestas

Que ficaram por contar,

Ali que havia de abrir-se

O tal jardim

Com flores que nunca morrem

Ou, se morrem, há-de ser

Na pujança da frescura

Por medo de envelhecer…


Mas não passei além daquela curva...

O meu alento

Já dobrou e desistiu.

E eu sei também que há glória que me chama

E que tudo que digo aqui ou faço,

É só arremedar, adivinhar,

O que, pra lá da curva que não passo

Havia de fazer ou de dizer!

E eu sei tão bem Que sem tomar nas mãos a

Glória apetecida

Me não contento!...


Por que é que tu és só pressentimento,

Minha vida?!


Sebastião da Gama, Versos quase tristes, in Serra Mãe, Ed Ática Lisboa 1991 (6ª), 92-93

1 comentário:

Carla Vieira da Silva disse...

Espero um dia encontrar o meu jardim:)